
Tesco abandona a VMware: o maior caso público de fuga da Broadcom até agora
Tesco abandona a VMware: o maior caso público de fuga da Broadcom até agora
A Tesco, uma das maiores redes varejistas do Reino Unido (receita de £73,7 bilhões no ano fiscal de 2026, cerca de US$ 98,7 bilhões), confirmou em documentos judiciais recentes que está migrando cerca de 40 mil workloads de servidores para fora da VMware. O movimento acontece em paralelo a uma disputa judicial contra a Broadcom, atual controladora da VMware, e é hoje um dos maiores casos públicos de migração documentada desde a aquisição da VMware pela Broadcom em novembro de 2023.
Para quem trabalha com infraestrutura, virtualização e contratos de licenciamento corporativo — como é o caso da Nyverra no dia a dia com clientes —, o caso Tesco funciona como um estudo prático de algo que muitos MSPs e times de TI já sentem na pele desde a mudança de modelo da Broadcom: o que acontece quando os termos que você assinou deixam de ser os termos que você tem.
A origem do contrato
O conflito tem raiz em um contrato firmado em janeiro de 2021, quando a Tesco adquiriu:
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Licenças perpétuas dos produtos VMware vSphere Foundation e Cloud Foundation;
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Assinatura da plataforma VMware Tanzu;
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Serviços de suporte e atualizações de software válidos até 2026, com opção de extensão por mais quatro anos.
A Computacenter atuou como revendedora do acordo, com a Dell como distribuidora dos produtos VMware. Além da virtualização, a Tesco também é cliente de softwares de mainframe da Broadcom, usados em processos críticos como pedidos de produtos para as lojas e processamento de folha de pagamento.
A virada após a aquisição pela Broadcom
Quando a Broadcom assumiu o controle da VMware, a varejista alega que a empresa não honrou os termos contratados. Segundo a petição inicial da Tesco, a Broadcom teria tentado forçar a cobrança de preços "excessivos e inflacionados" por software de virtualização que a Tesco já havia pago, e se recusado a vender serviços de suporte para as licenças perpétuas sem que a empresa também adquirisse licenças de assinatura duplicadas para os mesmos produtos.
Na prática, a Broadcom deixou de oferecer suporte independente para clientes que não migrassem para os pacotes por assinatura da companhia — e, segundo a Tesco, isso incluiu a recusa em fornecer todas as atualizações de segurança a clientes sem assinatura ativa.
Em janeiro de 2026, a Broadcom efetivamente interrompeu o suporte ao ambiente VMware da Tesco. Desde então, a varejista vem pagando por suporte de terceiros para manter o ambiente operacional enquanto conduz a migração.
A ação judicial e os números em disputa
A Tesco entrou com ação na High Court do Reino Unido em meados de 2025, acusando a Broadcom de quebra de contrato e conduta anticompetitiva, e está buscando mais de £100 milhões em indenização.
Documentos do processo revelam que a Broadcom apresentou pelo menos quatro propostas à Tesco ao longo do tempo:
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Uma "proposta estratégica" enviada em julho de 2024, cobrindo virtualização e mainframe;
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Uma proposta em 9 de janeiro de 2026, com termos separados para VMware e mainframe — a primeira vez em que a Broadcom segmentou as ofertas. A Tesco alega que teve dificuldade em avaliá-la, já que ela chegou apenas 19 dias antes do vencimento dos contratos vigentes;
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e 4. Duas propostas adicionais em abril de 2026, sendo uma delas avaliada em US$ 23,5 milhões (cerca de £17,4 milhões) por um único ano de VMware Cloud Foundation 9.0 somado a software e suporte de mainframe.
Segundo a Tesco, esse valor representaria um aumento de aproximadamente 175% sobre o que a empresa entende ter direito a pagar pelo contrato original de 2021 para os produtos VMware, e um salto de 350% para os produtos e serviços de mainframe. A varejista classificou os reajustes como "manifestamente injustos e excessivos".
A Broadcom, em sua defesa, rejeita essa caracterização e argumenta que, agora que a Tesco encontrou alternativas de mercado, será mais difícil para a varejista comprovar perdas financeiras passíveis de indenização.
"Conduta abusiva": a migração em ritmo acelerado
O trecho mais citado dos documentos judiciais resume o tom da disputa:
"Diante da conduta abusiva da Broadcom, e dada a criticidade dos softwares de virtualização e mainframe para o negócio, a Tesco foi forçada a incorrer em custos materiais para contratar soluções alternativas com funcionalidade reduzida, e a migrar para esse software em um formato, e em um prazo, que cria riscos muito significativos para o negócio."
A Tesco afirma que pretende concluir a saída da VMware até o fim de 2027, classificando esse prazo como o "mais rápido possível" e reconhecendo que vai exigir trabalho em ritmo excepcional. Entre os custos extraordinários citados estão os pagamentos a fornecedores terceirizados de suporte para manter o ambiente VMware funcionando após a Broadcom suspender o suporte direto.
Um detalhe técnico relevante para qualquer time de infraestrutura: a solução de virtualização escolhida pela Tesco para substituir a VMware não é compatível com Veeam e Zerto, ferramentas que a varejista usava para backup, recuperação, replicação e continuidade de negócios. Isso significa que, além de migrar o hypervisor, a Tesco também precisa repensar toda a camada de proteção de dados — um efeito cascata comum em migrações forçadas que muitas empresas subestimam no planejamento inicial.
Tesco não está sozinha
O processo da Tesco se junta a uma lista crescente de disputas entre clientes corporativos e a Broadcom desde a mudança no modelo de licenciamento da VMware. Casos notáveis incluem:
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AT&T, que chegou a um acordo confidencial com a Broadcom;
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Siemens, cujo litígio ainda está em andamento;
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Western Union, GEICO e Computershare, citadas como empresas que estão se afastando da VMware;
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Até parceiros históricos da VMware, como a Rackspace, estariam reduzindo o uso das soluções da companhia.
O movimento não fica restrito a grandes corporações. Um exemplo fora do ambiente empresarial tradicional: o instituto técnico secundário belga Scheppers Instituut Wetteren migrou para a provedora local Whitesky.Cloud para evitar um aumento de 400% nos custos de licenciamento, fazendo a troca sem precisar adquirir novo hardware.
Do lado da Broadcom, executivos já afirmaram publicamente que a empresa tem forte resistência em oferecer suporte estendido para produtos legados vendidos sob licença perpétua, preferindo migrar todos os clientes para o VMware Cloud Foundation (VCF) — argumentando que o pacote se paga rapidamente através de ganhos de eficiência operacional. Aproveitando o momento, a HPE anunciou recentemente uma oferta de um ano gratuito de licença para sua alternativa Morpheus VM Essentials, somada a uma licença simbólica de US$ 1 para o software de migração Zerto — um movimento claramente direcionado a clientes insatisfeitos com a Broadcom.
Quando o tribunal vai julgar o caso
A audiência na High Court do Reino Unido está prevista para uma janela entre 1º de novembro de 2027 e 25 de fevereiro de 2028 — não significando que o julgamento ocupará todo esse período, mas indicando a primeira disponibilidade do tribunal para analisar o caso. Ou seja: a Tesco terá concluído (ou estará concluindo) sua migração bem antes de qualquer decisão judicial.
O que esse caso ensina sobre risco de fornecedor
Do ponto de vista de quem projeta e sustenta infraestrutura crítica para empresas — seja em virtualização, backup, monitoramento ou ITSM —, o caso Tesco/Broadcom reforça pontos que valem para negócios de qualquer porte, não só para gigantes do varejo:
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Licença perpétua não é garantia de suporte perpétuo. Mudanças de controle acionário podem alterar unilateralmente as regras do jogo, mesmo com contrato em vigor.
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Migração forçada custa mais do que migração planejada. A Tesco está absorvendo custos extras de suporte terceirizado, perda de funcionalidade e prazos apertados — exatamente os riscos que um planejamento de continuidade tenta evitar.
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A camada de backup/DR é parte da decisão de hypervisor, não um detalhe posterior. A incompatibilidade entre a nova plataforma de virtualização da Tesco e suas ferramentas de Veeam/Zerto mostra como a escolha de hypervisor arrasta consigo toda a stack de proteção de dados.
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Diversificação e portabilidade reduzem poder de barganha do fornecedor. Empresas presas a um único ecossistema de virtualização ficam mais vulneráveis a reajustes abruptos de licenciamento — um argumento a favor de arquiteturas baseadas em plataformas abertas, como Proxmox e oVirt/OLVM, que vêm ganhando espaço justamente nesse cenário de incerteza pós-aquisição da VMware.
O desfecho do processo ainda vai levar anos para ser julgado, mas o efeito prático já está em curso: o caso da Tesco amplia a pressão sobre a estratégia comercial da Broadcom para a VMware e serve de alerta para qualquer empresa que dependa de contratos de licenciamento de longo prazo com fornecedores que podem ser adquiridos — e ter suas regras reescritas — de um dia para o outro.
Fontes: Cyber Security Brazil e Ars Technica (via The Register, Slashdot, SDxCentral, TechRadar e Tom's Hardware).
Publicado por Nyverra Tecnologia — nyverra.com.br
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